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terça-feira, setembro 14, 2010

Da história do AVATAR

Nos últimos dias tive a oportunidade de ver o filme Avatar, no meu computador e, naturalmente, sem ser a 3 dimensões. A propósito do filme haviam sido partilhadas comigo opiniões de que era uma história pobre, uma simples história de amor entre um humano e uma nativa de outro planeta, mas com grandes efeitos especiais, só valendo a pena vê-lo a 3D...

Não o ter visto no cinema com os óculos especiais, talvez me tenha feito ver o filme para além das 3 dimensões. Vi um filme com uns efeitos e imagens deslumbrantes e, ao mesmo tempo, um filme com um argumento cuja mensagem é bastante profunda, incidindo na desprezível forma como o ser humano trata a NATUREZA, ou seja, a sua própria VIDA... É necessário sabermos coexistir com a natureza - a nossa mãe, o nosso lar, o nosso "deus" criador. É ela que nos dá a vida, a morte, que nos alimenta, nos transforma, nos castiga...

Além disso, é necessário vermo-nos uns aos outros... Vermo-nos para além da carcaça que nos protege e na qual habitamos. Caminhamos cegamente para o Admirável Mundo Novo do Huxley: valoriza-se o culto do corpo, a aparência, os espelhos... em detrimento do pensamento, dos sentimentos... E esquecemo-nos de ver para lá do olhar... O AVATAR vale mesmo a pena ser visto para lá do olhar!



A propósito, além de aqui deixar o trailer do filme, lembro a excepcional canção de Roger Waters: «No tears to cry, no feelings left, the species has amused itself to death...».



Agora, sim, estou pronta para ver o filme em 3D. Alguém me pode dizer como faço?

Saudações de uma comparsa!

terça-feira, maio 04, 2010

Ágora, de Alejandro Amenábar


O filme Ágora de Alejandro Amenábar recria minuciosamente um dos períodos mais importantes da história da humanidade: a expansão do cristianismo. Na antiga cidade de Alexandria coabitam três religiões: o paganismo, o cristianismo e o judaísmo. E se hoje podemos assistir ao mau estar criado pelas diferentes religiões espalhadas pelo mundo, imaginem o ambiente vivido no séc. IV na cidade de Alexandria... É difícil de imaginar, de facto. Mas também não é necessário, porque o filme Ágora recria fidedignamente esse período.
O filme mostra-nos o confronto entre a antiga religião do império romano, devota aos vários deuses, e o cristianismo; a afirmação do cristianismo como nova religião; a perseguição aos judeus; o descrédito da ciência em favor da religião; a destruição da biblioteca de Alexandria, com os livros antigos, em formato de rolo, queimados, uma vez que estes eram considerados símbolos e veículos da cultura e da religião pagã; e, fundamentalmente, o desvirtuamento da condição e do estatuto social da mulher, através da figura central do filme: a filósofa Hipátia, excepcionalmente protagonizada pela actriz britânica Rachel Weisz.
Hipátia foi uma filósofa extremamente importante. Sempre à frente do seu tempo, lutou para unir a humanidade, convicta naquilo que mais defendia: a ciência. Não obstante, acabou por ser contestada pelos cristãos, fiéis leitores e seguidores da Bíblia: «Então descobri que a mulher é mais amarga do que a morte, porque ela é uma armadilha...» (Eclesiastes 7, 26); «Foi pela mulher que começou o pecado e é por culpa dela que todos morremos» (Eclesiástico 25, 24); «Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem» (Timóteo 2, 13).
Ágora recria assim, historicamente, os últimos anos da filósofa Hipátia e retrata tempos de intolerâncias religiosas e de escassa liberdade de expressão. Como refere o realizador, «o filme é contra a intolerância e alerta para aqueles que, nos dias de hoje, ainda estão dispostos a matar pelas suas ideias».
De salientar o trabalho de recriação e caracterização da época. Podia chamar a atenção para muitos pormenores, chamo especificamente para o uso das antigas tabuinhas de cera, suporte de escrita usado logo na primeira cena com a filósofa, onde podemos ver os seus alunos a tomar anotações nesse suporte; também de realçar o antigo formato do livro antigo a ocupar as estantes da biblioteca de Alexandria: o rolo. O único formato do livro actual que aparece no filme é a Bíblia e, na verdade, os cristãos foram de certa forma responsáveis pela expansão deste novo formato, em detrimento do rolo, visto como símbolo da cultura pagã.
É tradição deste blogue elegerem-se os melhores filmes de cada ano. Não foram eleitos ainda os de 2009, mas eu atrevo-me a apontar este como um dos melhores, sem dúvida. Para quem ainda não teve a oportunidade ou a curiosidade de ver, aconselho vivamente.


Saudações de uma comparsa!

sexta-feira, maio 15, 2009

Os Filmes da nossa vida...

Caros Comparsas,
o que vos venho pedir hoje é um exercício que não é fácil, mas que penso que será interessante e que ninguém se importará de fazer. Venho então perguntar-vos quais são os filmes da vossa vida, os que mais vos marcaram? Aqueles, que por uma razão ou por outra são importantes para vocês. Os que foram paixão à primeira vista ou aqueles que foram apreciando cada vez mais à medida que os foram vendo mais vezes. Ou ainda aqueles que vos recorda uma fase da vossa vida ou uma situação especial. Sim, eu sei que não é fácil, pois todos gostamos de tantos filmes... Aqui deixo a minha lista, e acreditem que muitos outros poderiam constar… Para facilitar, fiz uma lista de 10 e não hierarquizei os filmes que são os seguintes:


- O Padrinho de Francis Ford Coppola
- Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida de Steven Spielberg
- Fight Club de David Fincher
- The Big Lebowski
dos Irmãos Coen
- Pulp Fiction
de Quentin Tarantino
- O Pianista de Roman Polanski
- Heat de Michael Mann
- O Bom, o Mau e o Vilão de Sergio Leone
- The Departed de Martin Scorsese
- Garden State de Zach Braff


E vocês, quais são os filmes da vossa vida?

Filme do Ano 2008

Como alguns Comparsas se devem lembrar, no início do ano procedemos a uma votação de forma a eleger o Filme do Ano 2008. Devido a alguns contratempos que me afastaram de blogosfera só agora divulgo os resultados que obtivemos.
E o grande vencedor foi O Cavaleiro das Trevas que arrecadou 18 votos num total 64! O segundo filme da saga de Batman realizado por Christopher Nolan foi um sucesso de crítica e bilheteira e será sempre lembrado pela actuação de Heath Ledger, que lhe valeu, inclusivamente, um Óscar póstumo. Infelizmente, não me posso alongar na crítica do filme porque ainda não o vi… Mas está na lista para ver em breve.
Quero apenas ainda referir que o pódio ficou completo com Haverá Sangue (8 votos) e o terceiro lugar foi partilhado por 3 filmes (Este País Não É Para Velhos, Tropa de Elite, Ensaio sobre a Cegueira).


Saudações de um Comparsa

sábado, janeiro 03, 2009

Filme do Ano 2008

Depois do interregno de um ano, o Falcão e Comparsas volta mais uma vez a eleger o Filme do Ano! Em 2006, Matchpoint foi o grande vencedor desta eleição, mas 2008 foi também um ano de bom cinema, e apesar de não ter ainda visto todos os filmes nomeados, estas são as películas que constam em quase todas as listas de melhores do ano. Desde blockbusters como O Cavaleiro das Trevas, passando pela adaptação ao cinema de Ensaio sobre a Cegueira e pelas obras com a marca dos irmãos Coen (Este País Não É Para Velhos e Destruir Depois de Ler), todos têm lugar nesta lista de nomeados. Temos também o cinema de animação com Wall-E, o de fantasia com Sweeney Todd e duas comédias de estilos completamente diferentes (Juno e Tempestade Tropical). O cinema brasileiro regressou em força (Tropa de Elite) e temos também dois grandes filmes europeus (A Turma e Gomorra). E não nos podemos esquecer de o Lado Selvagem de Sean Penn, de mais uma obra-prima de PT Anderson (Haverá Sangue) e da surpresa In Bruges.
Votem em consciência naquele que mais gostaram... Não se esqueçam que o vencedor vai ser galardoado com o Falcão de Ouro!





Saudações de um Comparsa

sábado, dezembro 13, 2008

In Bruges

Comédia, drama, humor negro, diálogos bem construídos e inteligentes, prostitutas, canadianos, drogas, suicídios, violência explícita, padres, miúdos, anões. E a bela cidade de Bruges… Estes são os condimentos de uma das boas surpresas que tive nos últimos tempos!
Bruges, uma bem preservada cidade medieval na Bélgica, é um destino acolhedor para os turistas de todo o mundo. Mas para os atiradores profissionais Ray e Ken, bem poderia ser o seu último destino: um trabalho difícil resultou no envio do par, seguindo ordens de Harry, o chefe londrino, mesmo antes do Natal, para a cidade flamenga durante duas semanas, para arrefecer os ânimos. Mas quanto mais tempo aguardam a chamada de Harry, mais surrealista se torna a experiência, envolvendo-se em estranhos encontros com a população local, turistas, arte medieval e um potencial romance para Ray sob a forma de Chloë, que também ela parece ter alguns segredos ocultos. E quando chega finalmente a chamada de Harry, as férias de Ken e Ray transformam-se numa luta de vida e morte de proporções cómicas e consequências surpreendentemente emocionais.
O argumento de McDonagh oferece-nos bons diálogos para duas fortes interpretações. Brendan Gleeson não conseguiria despertar mais empatia nesta figura lúcida e paternal e Colin Farrell, num ambiente onde se sente manifestamente confortável, é aquilo que Hollywood não o deixa ser: depressivo, nervoso e derrotista. A isto juntamos um leque extenso, mas brilhante, de personagens secundárias invulgares, que vão deste o anão racista à bela traficante de droga, passando pela prostituta de Amesterdão, tudo em “In Bruges” é absurdamente pensado ao pormenor.
“In Bruges” não se transformará num clássico, mas se o virem, decerto não darão por perdido o vosso tempo. Fica a sugestão para uma destas frias noites de Inverno...


sábado, agosto 30, 2008

Tarantino's Mind

Durante mais uma das minhas deambulações pela blogosfera, deparei-me com esta pequena pérola protagonizada pelos actores brasileiros Selton Mello e Seu Jorge (Cidade de Deus, The Life Aquatic). E sendo um grande fã de Tarantino, vejo-me na obrigação de a partilhar com vocês e, ao mesmo tempo, de iniciar uma nova rúbrica. Comprometo-me então a procurar e dar a conhecer mais curtas-metragens disponíveis no Youtube.
Para já, vejam um exemplo do que se pode fazer com pouco dinheiro, aliando o talento à criatividade... Tenho a certeza que esta curta fará as delícias de qualquer cinéfilo que se preze e quem não conhecer os filmes que são referidos, aconselho a sua rápida visualização, pois fazem parte da história do melhor cinema dos últimos quinze anos.
Apreciem lá esta conversa Tarantinesca sobre os filmes do Tarantino...

terça-feira, março 11, 2008

Sweeney Todd, o Terrível Barbeiro da Fleet Street


Sweeney Todd, o Terrível Barbeiro da Fleet Street, realizado por Tim Burton, é uma adaptação cinematográfica de um espectáculo estreado na Broadway em 1979, ao qual o realizador permanece fiel.

Tim Burton transporta para o grande ecrã um dos grandes mitos urbanos londrinos – a história de um barbeiro inglês que no início do século XIX se dedicava a assassinar os seus clientes. Fazendo parte de uma tradição oral, a história é referida por Charles Dickens no seu livro Martin Chuzzlewit (1843), sendo logo a partir de finais do século XIX representada em vários palcos, dando lugar ao primeiro filme (ainda mudo) em 1926, feito em Inglaterra.

Em 1973, o dramaturgo britânico Cristopher Bond escreve a peça Sweeney Todd, na qual acrescenta o lado luminoso do personagem, o Benjamin Barker, separado da mulher e da filha por um juiz corrupto, cuja separação e exílio o faz alimentar-se por uma enorme sede de vingança que se perpetua em Sweeney Todd. O enredo ganha assim «uma dimensão social, com críticas à desigualdade de classes, à justiça corrupta e à voracidade desumana do capitalismo industrial galopante» (Eurico de Barros - DN).

Stephen Sondheim e Hugh Wheeler transportam a história para o palco da Broadway em 1979 e, apesar das primeiras reacções confinadas de horror a tanta violência em palco, Sweeney Todd esteve quase dois anos em cartaz.

Sam Mendes teve o projecto de realização do filme sobre Sweeney Todd com Russell Crowe, mas felizmente desistiu em 2006. Digo felizmente porque acho que ninguém melhor do que Tim Burton adaptaria tão bem esta história para cinema, nem ninguém melhor do que Johnny Depp daria vida à personagem do sanguinário barbeiro.

Deste modo, das tesouras às navalhas, chega-nos uma nova personagem interpretada por Johnny Depp, o terrível barbeiro da Fleet Street, Sweeney Todd. Parecendo à primeira vista apenas mais um filme de Tim Burton, que nem sequer se preocupa em escolher novos actores – esta é a 6.ª participação de Johnny Depp em filmes de Tim Burton; sendo a 5.ª de Helena Bonham Carter, esposa do próprio realizador – os seus actores de elite provam uma vez mais a razão da sua preferência. É que Tim Burton decide realizar um musical e não precisa preocupar-se em mudar de actores, porque eles até servem para cantar… E cantam muito bem, ao contrário do que tenho por aí lido. Stephen Sondheim, cuja composição musical é absolutamente fantástica, participa no projecto do filme e ele próprio aprovou, depois de uma audição, a escolha dos actores.

Johnny Depp prova uma vez mais que é um grande actor, os papéis dos personagens dos filmes de Tim Burton são uma perfeita simbiose com Johnny Depp. De facto, é difícil imaginarmos outro actor a fazer os mesmos papéis com tanta perfeição. Sou, sem dúvida, uma grande fã de Johnny Depp e devo dizer que é com uma enorme satisfação que o tenho visto crescer no grande ecrã, desde a sua interpretação em Eduardo Mãos de Tesoura, o primeiro encontro entre Burton e Depp. Como refere Luís Miguel Oliveira (Público), «física e figurativamente, Sweeney é um Eduardo mais velho (com uma madeixa branca no cabelo preto), mais triste e mais violento, que se completa quando tem nas mãos uma navalha de barbear». Se esta interpretação não foi o auge (Depp foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor Principal e recebeu o Globo de Ouro por Melhor Actor de Comédia/Musical), a próxima certamente me fará cair da cadeira.

Helena Bonham Carter interpreta o papel de Mrs. Lovett, cozinheira das piores empadas de Londres e cúmplice de Sweeney Todd. O filme conta também com os papéis de Sacha Baron Cohen (Borat), no papel do Signor Pirelli, e de Alan Rickman, o juiz corrupto.

Como refere Eurico de Barros, Sweeney Todd foi filmado «num negrume de carvão que infiltra a cidade e mancha os corações, só contrariado [pelas cores do passado feliz de Benjamin Barker e] pelos chuveiros de sangue das gargantas abertas pelo barbeiro». Deste modo, facilmente se percebe a progressão da terceira cor do filme: o vermelho do sangue, que invade a tela, contrastando com o preto e o branco dominantes, tornando os últimos vinte minutos do filme absolutamente inesquecíveis.





Para os interessados em prémios cinematográficos (que não influenciam em nada a minha preferência, daí referi-los em último lugar e a letras mínimas), Sweeney Todd, além da nomeação para Óscar de Melhor Actor Principal e Melhor Figurino, esteve nomeado para os Globos de Ouro nas categorias de Melhor Realizador Comédia/Musical e Melhor Actriz, e não só recebeu o Globo de Ouro de Melhor Actor, mas também de Melhor Filme Comédia/Musical.

Saudações de uma Comparsa

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Atonement - Expiação


Este filme, estreado entre nós durante o mês de Janeiro, é um bom exemplo da bela colheita cinematográfica deste ano.
Primeiramente apresentado no Festival de Veneza, o novo filme de Joe Wright (que nos trouxe em 2005 uma nova versão de “Orgulho e Preconceito”) é um dos grandes filmes deste novo ano, e ganhou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme em Drama. Não há razões para menos, pois estamos perante um título de enorme poder visual e força narrativa, bem servido de excelentes interpretações.
Baseado no aclamado romance de Ian McEwan, Joe Wright agarra todo o potencial desta obra literária, e transforma-a num filme possuidor de uma qualidade temática invejável, muito bem complementada pela sua segura realização, vestida de momentos artísticos de grande relevância.
“Atonement” é um drama familiar e romântico que a dada altura se cruza com o filme de guerra e que mantém uma certa aura que apetece classificar como “clássica” mas que não o é de todo. Em termos narrativos, “Atonement” é muito menos linear do que seria previsível neste tipo de filmes. O tempo é bastante fragmentado, com vários flashbacks que repetem a mesma acção de perspectivas diferentes. Mas comecemos pelo princípio. "Atonement" tem dois momentos bem distintos. Na primeira parte estamos perante um filme de época à "Orgulho e Preconceito". Aqui deparamos-nos com as inquietações sociais de uma família da alta sociedade britânica. É tudo muito bem filmado e os cenários e a fotografia são exemplares. Depois entramos em algo que toca no campo da tragédia épica em tempos de guerra. Uma espécie de "Paciente Inglês", magistralmente filmado e interpretado e com um desfecho poderoso que vem dar todo um novo sentido à primeira parte.
Toda a narrativa é construída sobre personagens de enorme peso humano, e Keira Knightley volta a demonstrar o porquê de ser uma das mais importantes actrizes da actualidade, acompanhada do sólido James McAvoy (que alguns conhecerão da excelente série britânica “Shameless” da SIC Radical ou de “O Último Rei da Escócia”), um condenado inocente que carrega em si um pecado que não lhe pertence.
Dotado de uma experiente e inteligente realização, uma montagem carregada de suspense, um argumento excepcionalmente bem escrito e de prestações bem conseguidas, “Atonement” é desde já um dos grandes acontecimentos de 2008, onde há ainda lugar de destaque para a fabulosa banda sonora de Dario Marianelli, e para a fotografia de Seamus McGarvey, que capta tão sobriamente a ténue linha entre a esperança e o medo que as imagens nos revelam. Um pequeno conselho: estejam atentos a uma verdadeira lição de "como realizar um épico", no momento em que McAvoy chega à praia francesa de Dunquerque.
Numa semana como esta, tenho que referir as sete nomeações para Óscar que esta película arrecadou, incluindo Melhor Filme. É um filme que aconselho vivamente, que pode não ficar nos vossos preferidos (não ficou nos meus...), mas que toda a gente deve ver, pois isto é bom cinema!




quinta-feira, fevereiro 14, 2008

E os nomeados são...




Deixem as vossas previsões e preferências até dia 24. Bons filmes para todos.
Saudações de Um Comparsa

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford


Não é todos os dias que nos chega um filme como “O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford”, a segunda obra de Andrew Dominik.
Cruel assassino para uns, herói popular para outros, Jesse James é, aos 34 anos, um carismático criminoso acusado de ter morto pelo menos 17 pessoas. Em 1881 a maioria do gang original de Jesse James encontra-se morta ou presa. Para os seus golpes, Jesse e o seu irmão Frank recrutam os irmãos Ford: Charley e Robert, um ambicioso jovem de 19 anos que idolatra (e inveja) James...
Embora o filme não seja de um todo um veículo para os seus protagonistas, as prestações de Brad Pitt e Casey Affleck são tudo menos secundárias. Brad Pitt consegue compor um Jesse James de uma ambiguidade misteriosa, entre o cruel e o atencioso, o violento e o terno. Uma figura maior, que recordamos pela postura serena no mal e no bem. Já Casey Affleck é o actor do filme, que certamente revelará ao mundo o excelente actor que ele é. O seu Robert Ford é magnífico, acompanhando Jesse com um olhar embevecido e um sorriso lânguido, com um misto perfeito de ódio e amor. A sua expressividade é impressionante, sobretudo nos grandes planos.
A começar nas interpretações, passando pela realização e terminando na fotografia, O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford tem todos os condimentos para ser um dos melhores do ano. Quem tiver o intuito de ver o filme, por favor, não pense que vai visualizar muitas cenas de grande acção ou grandes perseguições, pois isso não se sucede. O olhar de Dominik incide nos mais pequenos pormenores, fornecendo ao espectador uma visão extraordinária sobre todos os elementos em cena, naquele que é um dos melhores exercícios dos últimos tempos sobre a importância do ambiente. A câmara demora-se, convida o espectador à contemplação. Dominik não tem qualquer problema em atrasar a acção, só para que possamos entrar na pele dos intervenientes. Esta película conquistou assim duas nomeações para os Óscares da Academia: para Melhor Fotografia (realmente notável do talentoso Roger Deakins) e, claro, para Casey Affleck na categoria de Melhor Actor Secundário (que vai competir com Javier Bardem, que tem açambarcado todos os prémios com o seu trabalho em No Country For Old Men).

Deslumbrante western que não o é, e um filme biográfico que está longe de o ser. Antes uma visão poética de um acontecimento marcante que recorre a imagens deslumbrantes, íntimas e intensas, e a interpretações notáveis. Como uma evocação do estreito elo entre crime e fama, esta película faz uma observação histórica da cultura americana e da sua obsessão com a celebridade. A forma: visualmente arrebatadora.






P.S. Esta é a altura em que os melhores filmes do ano chegam a Portugal. E todos ao mesmo tempo... Podemos encontrar nas salas nacionais Sweeney Todd de Tim Burton (Charlie e a Fábrica de Chocolate, Eduardo Mãos-de-Tesoura), Expiação de Joe Wright (Orgulho e Preconceito), No Vale de Elah de Paul Haggis (Crash), The Darjeeling Limited de Wes Anderson (Life Aquatic), Jogos de Poder de Mike Nichols (Closer) e O Lado Selvagem do conhecido Sean Penn. Nas próximas semanas, vão estrear aqueles que são, para mim, os filmes mais esperados do ano: There Will Be Blood de Paul Thomas Anderson (Magnolia, Boogie Nights) e também No Country For Old Men dos irmãos Coen (Fargo,The Big Lebowski). Outras estreias aguardadas são Michael Clayton do estreante Tony Gilroy, The Savages de Tamara Jenkins e do muito elogiado Juno, que eu já tive oportunidade de visionar...

Como podem ver, há neste momento películas de boa qualidade para todos os gostos. Com tempo, irei falar daquelas que já me passaram pelas mãos.

Saudações de Um Comparsa

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Eastern Promises - Promessas Perigosas


Com este seu novo filme, o realizador David Cronenberg prova que está em grande forma e prolonga o estudo sobre a violência iniciado com o igualmente extraordinário “Uma História de Violência”. Sempre com uma forma muito própria de contar a história, Cronenberg manteve o estilo neste filme. Focalização nas relações humanas, ética, honra e violência explícita.

A história situa-se na Londres dos dias de hoje e gira em torno de Anna Khitrova (Naomi Watts), uma parteira que socorre uma jovem de Leste que morre ao dar à luz. Decidida a encontrar a família da criança, Anna segue o rasto do diário que ela deixou e de um cartão encontrado no seu interior o que a conduz a um restaurante tradicional russo. Porém, vê-se subitamente envolvida numa rede de criminalidade em que todos usam máscaras para esconder a verdadeira identidade. E é aqui que Anna se cruza com o misterioso Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen), o motorista de uma das mais famosas famílias do crime organizado de Londres, com origem na Europa de Leste. A partir deste momento, várias vidas ficam no fio da navalha, numa angustiante cadeia de crimes e enganos que se desenrola através dos mais negros recantos desta família e da própria cidade de Londres.

É a história mais simples e violenta dos últimos tempos, mas é também bela e uma lição de perfeição absoluta nos mais variados níveis: realização, argumento e interpretação. Os actores estão soberbos, dos principais aos secundários e Viggo Mortensen tem aqui, provavelmente, a melhor interpretação da sua carreira, construindo uma personagem de carácter indefinido, abstracta, que ao circular entre os dois mundos, acaba por misturar comportamentos e sentires numa vertiginosa descida aos abismos da alma humana.

Há imagens e cenas em”Eastern Promises” que tão cedo não esquecerei e ainda bem que assim é, destacando-se a sequência da luta na sauna que é tão explicitamente brutal, como recheada de humor negro e brilhantemente filmada. Cronenberg no seu melhor, num dos melhores filmes dos últimos tempos.




terça-feira, novembro 20, 2007

Control

Estreou em Portugal na passada quinta-feira, dia 15, a tão esperada película "Control", acerca da vida de Ian Curtis, vocalista e líder da mítica banda de Manchester dos anos 80, Joy Division.

Anton Corbijn transportou para a tela, a história biogáfica de Ian Curtis, baseada na biografia, "Touching From A Distance", escrito pela viúva do líder da banda, Deborah Curtis, passados 15 anos após o seu trágico suicídio.


Para poder transmitir a carga emocional e a atmosfera misteriosa, encantadora e poética que envolve esta mítica personagem do rock (se assim lhe quiserem chamar), há que transportar o leitor umas décadas atrás, à cidade de Manchester, em Inglaterra.

Em 1977 , Manchester era uma cidade cinzenta, essencialmente industrial e de paisagem claustrofóbica, onde já fervilhava a vanguarda que iria herdar o punk e trazê-lo de volta ao mundo no formato new-wave.

No mesmo ano actua no Electric Circus, a banda que viria a ser a futura Joy Division, mas que na altura subia ao palco sob o nome de Warsaw (nome esse, retirado da música “Warszawa” do LP “Low” de David Bowie). Os elementos da banda apresentavam-se de cabelo curto, camisa abotoada e dentro de umas calças pretas à anos 40 – uma imagem consideravelmente invulgar, contrastando com as jeans rasgadas e o spiky-hair de uns Sex Pistols- (relembro o leitor que no ano de ’77 eclodia o punk-rock na capital inglesa.)

Em 1978, a banda toca no Factory Club, (onde nasceram os controversos Happy Mondays), do famoso e recentemente falecido jornalista Tony Wilson, que foi o responsável pela divulgação do punk/ new wave inglês, e apresentador do lendário programa “So It Goes”, onde se estrearam diversas bandas da época como os Buzzcocks. (Para os leitores interessados na história do Factory Club e das bandas que por lá passaram aconselho o fantástico filme, “24 Hours Party People”.)

Depois desta actuação que mostrava mais uma banda vulgar, os Joy Division trabalharam imenso o seu som e performance: Peter Hook e Bernard Sumner tornaram os gemidos das suas guitarras numa melodia que havia de se tornar a base e o ex-líbris da sua música, acompanhados pelas batidas distantes e secas de Stephen Morriss e pelo romantismo original e intimista da voz de Curtis. O mito tinha acabado de nascer e ninguém imaginaria o que estava para acontecer.

Após travarem conhecimento com o genial produtor Martin Hannett, lançam o primeiro LP “Unknown Pleasures”, recebido de forma brilhante pela imprensa e que fez catapultar a banda do anonimato para a estante das bandas de culto de Inglaterra.

Tornavam-se um culto e uma moda para os meios estudantis. Em 1979 saêm os singles que ainda hoje ecoam em qualquer bar de “rock”: “Transmission” e “Atmosphere”, (cujo videoclip também fora realizado por Anton Corbijn).

Miguel Esteves Cardoso, (que na altura se encontrava a estudar em Manchester e que colaborava e escrevia para a revista “Música e Som”) diz-nos: “Ao vivo, os Joy Division tinham sobretudo a força da sua convicção incrível – aquela soturnidade introspectiva, a loucura demasiado franca de Ian Curtis, e, acima de tudo, a sensação de solidão da banda (em relação ao público e, depois, a tudo) eram demasiado fortes para serem assimiladas como um mero e divertido espectáculo Rock.” (in Escrítica Pop, de M.E. Cardoso).

Em vésperas de uma tourné pela América, Curtis é encontrado pela sua mulher ajoelhado no chão da cozinha de sua casa em Macclesfield com uma corda ao pescoço. Era 18 de Maio de 1980 e cumpria-se assim o mito romântico do artista/herói perturbado: mais uma morte prematura na cultura rock.

O resto explica-se facilmente. Nascem os New Order como a banda órfã de Curtis, vingando a sua música na cena electrónica que desabrochava nos anos 80, com a entrada em força dos sintetizadores na criação de sons e batidas.


Regressando ao filme “Control”, este ilustra a preto e branco o percurso de Ian Curtis desde a sua juventude em que sonhava ser um Bowie ou até mesmo um Morrisson até ao dia 18 de Maio de 1980. Não se desanimem os leitores pelo facto de eu poder ter estragado qualquer efeito surpresa do filme! Pois esta película não se trata de contar uma história, pois essa já toda a gente a sabe!, mas sim, ilustrar e documentar para a prosperidade o “mito Ian Curtis” e relatar/ desvendar o que atormentou o vocalista que dividia o seu amor por duas mulheres.(!)

Do ponto de vista pessol, e como é óbvio, adorei o filme. Apesar de já saber o que esperar da história entrei na sala ansiosa e saí de lá abatida. Inevitável. Corbijn fez um excelente trabalho e adorei o facto de ter optado por uma tela a preto e branco, remetendo-nos naturalmente para uma história do “passado”, escondida e cheia de “pó”. É um filme arrepiante e tenso , em que por vezes o humor por parte das personagens da banda, nos descontrai momentaneamente.

Para os fãs da banda é um filme imperdível, obrigatório e essencial. Para os desconhecedores da banda é um filme que vale a pena e que mesmo assim é capaz de vos prender, tocar e fazer apaixonar.

O rock perdeu muito cedo um dos seus mais belos príncipes. É um reinado que irá continuar (será que ainda continua?), mas nunca mais será (/foi) o mesmo.


sexta-feira, outubro 26, 2007

Almost Famous - Quase Famosos

É um daqueles filmes que ficam, que vemos repetidamente e não nos cansamos. “Almost Famous” é um retrato nostálgico e tocante mas sempre bem-humorado, sobre o mundo do jornalismo e do Rock and Roll dos anos 70. O filme de Cameron Crowe é uma película sobre um grupo de música que nunca existiu (os “Stillwater”), mas é, simultaneamente, um filme autobiográfico do realizador.

O filme passa-se no início da década de 70. William Miller, um adolescente de 15 anos, é um aspirante a jornalista de Rock and Roll desde que ouviu “Sparks” dos «The Who» e descobriu e se apaixonou pela Música. Depois de escrever artigos sobre música para um jornal de bairro, acaba por receber um convite inesperado da consagrada revista "Rolling Stone", que o encarrega de fazer uma reportagem sobre os “Stillwater”. O seu trabalho é capturar aquele momento muito especial, único e irrepetível no mundo da música, em que uma banda quase desconhecida está a um passo de se tornar famosa. “Almost Famous” é a história dessa reportagem que se vai desenrolando durante uma tournée dos “Stillwater”. Mas nessa espantosa viagem pelo país real, William vai passar de repórter neutral e objectivo, a observador participante na dinâmica do próprio grupo. Os “Stillwater”estão no limiar do sucesso, mas William, aos 15 anos, está a viver um momento mágico da sua vida.

Ao contrário da maioria dos realizadores de filmes sobre o mundo do rock, que só o conheceram enquanto espectadores de concertos, Cameron Crowe, antes de ser cineasta e de ter feito “Almost Famous”, foi o mais jovem jornalista de rock americano, tendo-se tornado nos anos 70, num dos nomes de destaque da "Rolling Stone". Não admira, portanto, que “Almost Famous”, onde Crowe foi beber às suas memórias de jovem jornalista, e cuja personagem principal é o seu «alter ego», desminta todos os estereótipos do excesso, da revolta e da auto-destruição típicos dos filmes sobre bandas rock. Crowe consegue falar de sexo, drogas e Rock and Roll num tom e a uma escala «normal», que tudo humaniza, tudo desmitifica e tudo torna credível à primeira impressão.

Os actores são, sem excepção, sublimes, nos papéis principais e secundários. De Billy Crudup a Jason Lee, de Patrick Fugit a Kate Hudson, passando por Philip Seymour Hoffman e, claro, a grande Frances McDormand. E os fãs dos gloriosos anos 70 podem recordar na banda sonora temas dos «Led Zeppelin», «The Who», «Elton John», «Black Sabbath», «Yes», «Simon and Garfunkel», «The Beach Boys», «David Bowie», entre muitos outros nomes que fizeram história.

Ganhou o Óscar de Melhor Argumento Original, além de ter recebido outras 3 nomeações: Melhor Actriz Secundária (Frances McDormand e Kate Hudson) e Melhor Edição. O Argumento de “Almost Famous”, escrito por Cameron Crowe, é baseado nas suas memórias de quando acompanhou parte da tournée americana dos «Led Zeppelin». Aliás, os “Stillwater” são uma mistura de três grupos que o realizador Cameron Crowe adorava: «Led Zeppelin», «Allman Brothers» e «Lynyrd Skynyrd».

Se nunca viram, procurem ver e deliciem-se com esta carta de amor de Cameron Crowe ao Rock and Roll.

“What do you like more about music?”

“Everything…”